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Variações do Brancø vol.3

A Trilogia das Cores parte de uma reflexão artística sobre a influência da cor ao longo da História, mas também no meu percurso enquanto músico: o vermelho (Øcre vol.1), o preto (Øbsidiana vol.2), e o branco (Variações do Brancø vol.3), as três cores de Orfeu.

As cores surgem como chave do processo criativo, que, ao evocar o próprio nascimento da arte, se encontram presentes nas pinturas e gravuras rupestres, e ganham uma dimensão metafórica e simbólica na mitologia clássica.

Nalgumas culturas orientais, o branco é a cor do luto e da resiliência. Simultaneamente é a cor da página em branco e da imaginação simbólica. O branco evoca paisagens alvas, distâncias monótonas, das vastas planícies geladas aos desertos de areia clara. Simboliza o renascimento, a simplicidade e a restauração. As cores da Primavera são representadas com as pétalas brancas e significam renovação e eterno retorno.

Partindo de uma lista simbólica, como o branco-cal, o branco-pão, o branco-gelo, o branco-linho, o branco-luz, ou a noite branca, a cor vai-se desdobrando em múltiplas e renovadas colheitas.

Neste ensaio sonoro, qual rio lento que se afeiçoa à paisagem por onde flui, a cor vai sugerindo e moldando o processo composicional
e dramatúrgico, profundamente enraizada nas mais antigas tradições e nos mais antigos arquétipos, presentes no consciente e no inconsciente colectivos, nos códigos culturais, na impressão primordial.

The Art of Song vol.2 – Between Sacred and Profane parte das influências musicais que moldaram artisticamente Rita Maria & Filipe Raposo e que coabitam num território próprio – o da música erudita, do jazz e do cancioneiro tradicional – os quais são, aliás, premissas para esta criação.

Os ritos e os mitos têm desempenhado uma função de procura e ligação ao profundo, de regresso à origem, na explicação dos mistérios; apaziguam e reconfortam, conferindo significado e valor à nossa existência. Nas culturas que separam o mundo do divino do mundo do quotidiano, a relação entre Sagrado e Profano pode ser interpretada como religião e não religião. No entanto, nas sociedades arcaicas, cada intervenção do homem no ambiente rural, como o abrir a terra com um arado ou o derrubar uma árvore da floresta, possuem os ritmos de uma sacralidade latente, não se sentindo diferenciação entre as actividades laico-profanas e a actividade sagrada. É como se vivessem numa permanente imersão no sagrado. Existe uma pulsão unificante, onde tudo é sagrado e profano.

The Art of Song, vol.2 pretende, através de canções colhidas de épocas e contextos distintos, evidenciar o papel do canto e da sua força telúrica como factor primordial na socialização, na passagem de conhecimento e no acompanhamento das actividades rituais do trabalho e da religião, do mundo dos homens e dos deuses. O repertório surge assim organizado por temáticas que nos conduzem pela bruma do tempo: as Deusas e os Homensos Ritos e o Trabalhoas Mãos e os Frutosda Vida e do Amordo Berço à Cova, num Eterno Retorno revisitado geração após geração.

Um Piano Afinado Pelo Cinema

Para tentar promover a sua legitimação, o cinema, associou-se a outras áreas artísticas, como a literatura e a pintura, mas teve como principal aliado a música. O cinema mudo raramente foi silencioso, pois era comum que os visionamentos fossem feitos com acompanhamento de música ao vivo nos seus mais diversos formatos.
Nos cineconcertos ao piano, voltamos a assistir aos filmes como foram projetados e acompanhados ao piano no início da história do cinema, uma experiência imperdível.

Desde 2004 que Filipe Raposo colabora com a Cinemateca Portuguesa como pianista residente no acompanhamento de filmes mudos, tendo já acompanhado ao piano centenas de filmes da época do cinema mudo, criando verdadeiras bandas sonoras que se tornam intrínsecas aos objetos fílmicos. 

O Nascimento da Arte:  Filipe Raposo e António Jorge Gonçalves

Quando começámos a criar obras de arte?
Que sabemos dos humanos que desenharam as gravuras rupestres?
Qual a necessidade que os levou a criar?
Teria sido pelas mesmas razões que criamos hoje?

Este é o ponto de partida para António Jorge Gonçalves e Filipe Raposo procurarem respostas, e sobretudo melhores perguntas. Usando duas das ferramentas tecnológicas mais marcantes da história – o computador e o piano – os dois artistas têm pesquisado nos últimos anos um diálogo íntimo entre o desenho em tempo real e o piano. Nos seus espetáculos têm construído – em ambiente de improvisação e espontaneidade – um tipo de gramática que engloba tempo, estrutura, textura, abstração, evocação e emoção. 

Com O NASCIMENTO DA ARTE lançam-se num trabalho de longo curso estudando os vestígios espalhados pelo mundo do primeiro sinal sensível da nossa presença no universo.